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Revista de los Estudiantes de Historia

 Nº 4. Febrero de 2006

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Odisséias castrenses: os épicos da pmmg na visão homérica dos memorialistas militares1

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Francisco André Silva Martins2

Historiador do Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH)

Minas Gerais – Brasil

chicohist@ig.com.br

 

Resumo: A proposta do trabalho se reflete na busca de interpretar as singularidades da Historiografia Militar Mineira em diálogo ininterrupto com suas concepções no que concerne aos principais fatos históricos aos quais se encontra envolvida a Polícia Militar de Minas Gerais. Dentre os quais os eventos de destaque são: Guerra do Paraguai, Cangaço e Revoluções Brasileiras.

 

Palavras-Chave: História, Memória, Historiografia Militar Mineira, História Regional.

 

Introdução

O presente trabalho tem como propósito analisar a visão e concepção dos memorialistas militares no que concerne aos principais eventos históricos nos quais se encontra envolvida a Polícia Militar de Minas Gerais. A busca é de tentar contribuir para o entendimento das especificidades de uma Historiografia Militar Mineira, que no interregno proposto para o estudo – início da década 60 à primeira metade da década de 90, do século XX – é praticada em sua maioria por militares, sejam eles oficiais ou praças, da ativa ou da reserva, ou mesmo reformados.

O corpus documental utilizado para a análise é composto pelo conjunto de livros publicados por esses militares. A pretensão das obras é de retratar a história da Polícia Militar, nesse intuito essas carregam características particulares no que tange o relacionamento para com  a História e a Memória, a imagem resgatada da instituição marca um discurso heróico-tradicional. O arcabouço teórico dos autores está fundamentado no livro “Crônica Militar” (1960) de autoria de Augusto de Lima Júnior, que marca a gênese da escrita da história militar mineira, em livros de acesso irrestrito. A publicação desse livro aparece como importante fator de construção identitária para a Polícia Militar de Minas Gerais.

A rigidez da memória institucional a coloca como dogma, sagrada e intocável, e a torna personificação da verdade cabal. O legado do passado não é passível de crítica, mas de reconhecimento, orgulho e endosso. Em se tratando de  obras históricas sobre determinadas instituições como a Polícia Militar e publicadas por pessoas que não tenham sua formação acadêmica fundamentada na História, que se relacionam com a Instituição de maneira estreita ou estão nela inseridas, dá-se a entender em um primeiro momento que o comprometimento institucional está no cerne da obra. O comprometimento dos autores se dá como uma missão a cumprir, daí a relevância em se analisar a visão dos militares.

Um dos aspectos que chamam atenção na Historiografia Militar Mineira se refere ao privilégio de uma cronologia linear, onde os feitos épicos da Instituição Militar estão em concomitância e inseridos nos acontecimentos em Minas Gerais, por conseguinte na nação brasileira. Nessa forma de praticar História os fatos históricos brasileiros endossam a importância da Polícia Militar que se mostrou envolvida na maioria deles, portanto desprestigiada por aqueles que se abstém do reconhecimento da Instituição como participante ativa da história nacional. Como demonstra Geraldo Tito Silveira, citando o Major Manoel de Almeida, em seu prefácio, “só num futuro longínquo, talvez, se as circunstâncias de então o permitirem, poderão esses fatos – verdadeiras e decisivas contribuições da Polícia Militar no sentido do amadurecimento cívico da nação – ser incorporados aos registros de sua história” (SILVEIRA,1991, p.15).

O fato histórico como fenômeno utilizado pelo historiador é um acontecimento, esse não é previsível, é diferente em seus detalhes e tem sua singularidade variada. A localização no tempo e espaço é a característica que torna impossível uma repetição literal, portanto é histórico por pertencer ao passado e somente ser acessível por meio de estudos no tempo presente (GLÉNISSON, 1961, p.123-135). O acontecimento por ele mesmo não é história, faz-se necessário o estudo e a crítica do contexto que o envolve.   

O tempo cumpre com um papel importante, no que se refere à História tem o caráter específico de marcar, fixar uma cronologia. As mudanças e permanências que interessam ao historiador acontecem dentro do tempo, portanto o tráfego no tempo torna-se obrigação daquele que almeja fazer História. As datas nesse contexto são “pontas de iceberg” que não oferecem a possibilidade de entendimento por si só, são pontos de partida para uma verticalização necessária quando se pensa em produzir conhecimento, uma vez que “a cronologia, que reparte e mede a aventura da vida e da História em unidades seriadas, é insatisfatória para penetrar e compreender as esferas simultâneas da existência social” (NOVAIS, 1996, p.9-32).

O conjunto de obras publicado pelos militares estaduais é categórico ao narrar aqueles que são os feitos da Polícia Militar em sua história. Como atores principais os militares mineiros aparecem em um cenário que a história nacional não lhes creditou, as epopéias narradas pela Historiografia Militar Mineira caminham no sentido de tentar minimizar o ostracismo histórico sofrido pela Polícia na historiografia brasileira.

 

1) A Guerra do Paraguai

Tratar da participação da Instituição Polícia Militar de Minas Gerais na Guerra do Paraguai pode soar em princípio  como anacronismo – no que se refere aos termos e épocas –, porém a participação mineira através de instituições militares como os Voluntários da Pátria e do Corpo Policial de Voluntários, é o ponto de identificação para com o acontecimento.

Os militares mineiros tratam do acontecimento como a “maior odisséia da raça humana, nenhum outro acontecimento da História da Terra e da Humanidade pode lhe fazer sombra” (ASSIS, 1989, p.208). O exagero das colocações sinalizam para uma visão unilateral dos acontecimentos, que se mostra frágil a partir da negação total de qualquer leitura que não seja igual ou aproximada a essa.

A Historiografia Militar peca pela omissão da discussão no contexto político, social e econômico, bem como os papéis de países como Argentina, Uruguai, Inglaterra e o próprio Paraguai, visto apenas como invasor. O Brasil na visão dos autores estaria apenas revidando a invasão de um país expansionista administrado por um ditador chamado Solano Lopes. O herói nacional Duque de Caxias representa a defesa dos interesses da nação, e aqueles que não compactuam dessa visão e o vêem como militar que na guerra também matou, maculam a história nacional, uma vez que de acordo com Anatólio Assis “tais acusações sujam de fezes as páginas mais brilhantes de nossa história” (ASSIS, 1989, p.19), ou seja da história militar.

Entre os militares que escreveram sobre a Guerra do Paraguai, o Major Anatólio Alves de Assis se destaca pelo vigor com que defende seus pontos de vista, na verdade acredita dizer a verdade única e cabal sobre o evento e se mostra disposto a confrontos com historiadores que achem o contrário. Nesse sentido o compromisso do historiador não é com a ciência em busca de um entendimento do contexto estudado, mas com a nação.

(...) desafio a todos esses maus brasileiros que sujam com sua pestilência o nosso Brio e nossa Honra, vertendo sua bílis contra nossa pátria nas contradições da guerra do Paraguai, para um duelo verbal perante os principais historiadores e institutos de história (ASSIS, 1989, p.20).

Desperta a atenção, o tom de confronto e de defesa da honra nacional levantado, como se apenas os militares fossem brasileiros interessados pela história do país. O passado não pode ser maculado por aqueles que destroem verdades que há tanto tempo são reconhecidas como legado. Ainda em tom de confronto o autor se compromete a enfrentar seus adversários sem armas, sua prática da história está intrinsecamente ligada à memória única e exclusivamente.

Prometo não levar uma única anotação escrita para o debate. No que diz respeito aos meus possíveis adversários, poderão, se quiserem, conduzir livros, mapas e quaisquer outros implementos, a seu bel prazer. Também não faço questão do número dos meus oponentes. Eles poderão, à vontade, somar dois, dez ou vinte. Tanto faz (ASSIS, 1989, p.20).

Nas obras de Anatólio Alves de Assis a base documental está fundamentada nos testemunhos dos militares que estiveram em combate. Visconde de Taunay, General Paulo Queiroz e Capitão José Rodrigues Soares Júnior são os “historiadores” citados como biógrafos da contenda. Ao trabalhar com o discurso de militares brasileiros que lutaram na guerra, Anatólio em momento algum questiona o intuito da produção dessas obras que lhe servem de base, reproduz a visão do inimigo paraguaio, mais um sinal de fragilidade, principalmente quando o pretenso “objetivo deste trabalho é o de dar uma visão sincera e honesta dessa guerra” (ASSIS, 1984, p. 40). Os principais questionamentos em torno da documentação primária utilizada se restringem em discussões em torno de comandantes, datas e quantidade de membros dos exércitos. Ao soldado brasileiro o “resgate” de uma memória ausente, ao soldado paraguaio o silêncio sepulcral de suas covas.

A documentação cumpre ainda com outro papel que não o de comprovação, pode ser usada também para elevar o moral daqueles que não viveram a contenda e que hoje pertencem às fileiras da Polícia Militar. Na obra do Capelão Luiz Demarco Filho aparece entre a documentação – mesmo que sem nenhuma referência, nem mesmo o nome dos envolvidos – uma carta emocionada de um soldado conclamando o filho a servir na aos Soldados de Tiradentes e dá seus conselhos para seu sucesso como militar.

Os regulamentos são elaborados através de anos e anos de experiências, não é, de um dia para o outro, que devem ser julgados bons ou maus. Ainda que queiras fazer o bem, se estiver contra a letra do regimento, não deves pratica-lo, pois é do respeito às leis, donde nasce a justiça (DEMARCO FILHO, 1990, p.34).

O sucesso da Instituição está ligado ao adestramento militar de seus membros, bem como o sucesso daquele que está inserido nesse universo, passará pela disciplina e cumprimento do dever. A Instituição está sempre do lado que preserva a ordem, a utilização desse documento demonstra um intuito doutrinador, onde não é apenas um soldado do passado que está falando, é o pai falando ao filho. O depoimento carrega consigo a emoção e pode causar naqueles que lerem a emulação de procurar se tornarem iguais àquele bravo guerreiro.

O ato de lembrar aqueles que morreram na Guerra do Paraguai ecoa em tom memorial, o lembrar é um questionamento à falta de reconhecimento da sociedade, “é pena, pois, que os sucessivos governos do nosso estado, formados por políticos indiferentes ou burocratas incapazes não tenham voltado os olhos para tão magno acontecimento” (ASSIS, 1984, p.53). O papel daquele que se propõe a narrar a epopéia vivida pela Polícia Militar está na reivindicação de “toda honra e toda glória, de vez que seus filhos e antigos componentes foram figuras primordiais de um dos principais dramas da História da terra e da humanidade” (ASSIS, 1984, p.53).

 

2) A Polícia Militar e o Cangaço, uma luta árdua nos sertões de Minas Gerais

Em se tratando do cangaço no Brasil a historiografia nacional credita à figura de Lampião um papel central, o que leva a sociedade a reconhecer erroneamente esta manifestação como um privilégio da região nordeste. Os sertões do Estado de Minas Gerais nos idos de 1913/1929 foram palco de combates épicos entre a Polícia Militar e cangaceiros que antecedem em muito as atividades de Lampião.

O cangaceiro Antônio Dó – filho de Benedito Antunes de França e Sebastiana – aparece no cenário sertanejo mineiro em função de divergências com vizinhos em disputa por uma fonte de água (MARTINS, 1979, p.16). A disputa particular acabou se tornando uma questão política, uma vez que Dó pertencia a facção dos “morcegos” comandados por Antônio Joaquim Nunes e o vizinho Chico Peba pertencia a facção dos “gaviões” comandados pelo coronel Sancho Dias. As divergências políticas foram a gênese da contenda que levaria o campesino ao banditismo.

A disputa inicial se torna uma briga de proporções incomensuráveis, mortes e abuso de autoridades tornam-se corriqueiros. A Polícia Militar entra em cena quando o cangaceiro ameaça a ordem estabelecida, com invasões de cidades, assaltos, assassinatos e principalmente o desafio ao poder instituído. A área de atuação do cangaceiro abrangia as cidades de Brasília de Minas, São João da Ponte, Santo Antônio, Serra das Araras, São Romão, Januária, São Francisco e Paracatu no Estado de Minas Gerais (PINTO, 1983). Suas ações ultrapassavam as fronteiras do instituído chegando a Carinhanha e Cocos na Bahia e Sitio D’abadia e Riachão em Goiás.

O interesse em contextualizar as questões sociais e políticas do período e até mesmo o que levou um campesino a enfrentar e até matar policiais militares cai por terra. A Historiografia Militar trata a questão de forma maniqueísta onde o conflito entre Polícia e cangaceiro é reflexo da luta entre o “Bem” e o “Mal” nos sertões inóspitos de Minas. O cangaço, como fenômeno social, está intimamente ligado a forma de domínio político denominada de Coronelismo, sendo que ambos estão cronologicamente situados do final do século XIX aos anos 40 do Século XX (AZEVEDO, 1999, p.125). O período é marcado por crises de ordem econômica, social e até mesmo de autoridade.

Diversas rebeliões estouraram pelo país como Canudos, Juazeiro, Contestado, Caldeirão, Pau de Colher e Pedra Bonita, incluindo o cangaceirismo que se tornara prática entre os homens sem terra, sem bens, sem direitos, sem garantias, que buscavam uma saída para a vida de miséria e fome que levavam, reflexo do monopólio da terra exercido pelas elites que dominavam o país (FACÓ, 1976).

Rui Facó (1976) demonstra como diversas opiniões surgiram sobre a origem do cangaço. Ele acredita que ao contrário de prevalecer à ordem “quando a polícia apareceu para combater o cangaço, teve o mérito de exacerbá-lo, Por todo este interior do Brasil, onde quer que a polícia tenha chegado para perseguir cangaceiros ou fanáticos, praticou contra as populações rurais crimes mais hediondos do que ao cangaceiros mais sanguinários” (FACÓ, 1976, p. 44).

As obras militares ressaltam outra figura envolvida no digladio contra Antônio Dó, o Alferes Felix Rodrigues da Silva conhecido como Felão. Esse militar tem seu nome citado pela grande maioria dos autores militares estudados, bradado como herói e lembrado pelas atitudes violentas, na visão militar “eram precisos homens como Felão para realizar o impossível e fazer prevalecer à majestade da lei e da ordem” (ASSIS, 1974, p.201). Suas atitudes lhe renderam até uma música que compunha o folclore regional e que era cantada nos sertões mineiros.

Felão vei? Num vei, não! Pru que num vei?

Num sei não! Felão, Felão, Felão,

O alfere da mardição! (MARTINS, 1976, p. 61)

Entre as histórias narradas sobre o alferes se destaca o acontecido durante o período de perseguição a Antônio Dó. O abuso de poder perpassava por chacinas, queima de sítios de pequenos proprietários, além de estupros e o suplício do troca-dedo, que acontecia quando o oficial desconfiava que nos lugarejos em que estivesse se cantava sua música a qual tinha ódio, a prática ficou eternizado nas histórias militares.

Em pouco estava formada a roda, engrossada com pessoas da redondeza, para esse fim requisitadas. Todos nus, homens e mulheres, alternadamente, fechavam o círculo, cada um dos quais foi obrigado a enfiar o dedo médio de uma das mãos no cu do vizinho da frente, enquanto enfiava o mesmo dedo, mas da outra mão em sua própria boca .Assim dispostos e estimulados por uma taca de couro cru, a roda girava, lenta e cadenciada(...)Vez em quando, ao estalo da taca, Felão ordenava: Trocar de dedo (MARTINS, 1976, p.61-62).

As obras trabalhadas retratam os acontecimentos que envolvem o alferes Felão de forma a configurar a Polícia Militar o estandarte de defensora dos direitos dos “cidadão” – ou seja, proprietários de terras e bens, que politicamente se articulavam em função de sua posição – nesse sentido a ordem da sociedade civilizada não poderia ser abalada por aqueles considerados bárbaros do sertão. A época em que a manutenção da ordem era consignada com o atendimento das classes dominantes e proteção da propriedade privada ecoa na Historiografia Militar Mineira como tempos memoráveis da Instituição, o que se mostra no mínimo paradoxal para com sua pretensa conduta ilibada. Os métodos de controle dos movimentos se mostravam tão bárbaros quanto os cangaceiros, a Polícia se arvorava em representar a ordem, porém não permitia que sua farda refutasse o abuso de poder.

 

3) A presença da Polícia Militar de Minas Gerais nas Revoluções Brasileiras

Os momentos conturbados pelos quais o Brasil passou têm destaque na produção historiográfica militar mineira. Esses momentos são tratados pelos militares como revoluções. Os principais aconteceram a partir de 1922 com o Movimento Tenentista e a perseguição da Coluna Prestas, em 1930 com a revolução que provocou a “queda” da aristocracia latifundiária, em 1932 com a revolução constitucionalista de São Paulo e também o golpe da ditadura militar em 1964.

O termo Revolução carrega consigo complexidades com relação ao seu uso adequado de acordo com o contexto do acontecimento. È fato, que sua utilização denota um caráter de singularidade. A revolução como ”tentativa, acompanhada do uso da violência, de derrubar as autoridades políticas existentes e de as substituir, a fim de efetuar profundas mudanças nas relações políticas, no ordenamento jurídico-constitucional e na esfera sócio-econômica” (BOBBIO, 2000, p.1121)  se mostra inadequadamente utilizada nos acontecimentos narrados pela Historiografia Militar Mineira. As profundas mudanças estruturais são condição sine qua non para que qualquer movimento seja considerado uma revolução, além da ideologia que ocupa papel singular no contexto revolucionário.

Nas obras estudadas a utilização do termo sinaliza uma valorização excessiva dos eventos e por conseguinte daqueles que estão neles envolvidos, por coincidência ou não a Polícia Militar exerce papel central nas narrativas. Um trabalho que condicione diferentes movimentos sociais – com propostas e naturezas diferentes em suas singularidades – simplesmente como revolucionários, demonstra uma fragilidade considerável ao diálogo conceitual.

Levando em consideração que “a Revolução só se completa com a introdução de profundas mudanças nos sistemas político, social e econômico” (BOBBIO, 2000, p.1121), há de se considerar que os movimentos narrados pela Historiografia Militar Mineira cumprem com outro significado que não de revolução, uma vez que as mudanças profundas são esperadas até hoje por uma sociedade brasileira fundamentada na ruptura social.

Os papéis desempenhados pela Polícia nos eventos supracitados aparecem na produção historiográfica militar investidos de um significado de onisciência exercida pela Instituição, como se essa pudesse discernir entre o certo e o errado , haja vista que sempre esteve do lado considerado certo da contenda, ou seja, em prol da ordem e bem-estar social, independente do acontecimento e do contexto que o envolva.

A década de 20 é marcada por um conturbado momento sócio-econômico e político do país, o que desencadeia uma série de movimentos revoltosos que questionam a situação da sociedade como ela estava. O Tenentismo como um movimento militar de questionamento da política governamental expressava a insatisfação dos militares com a situação vigente. Os tenentes tinham como proposta a moralização do país através da derrubada das oligarquias em prol de uma boa administração, bem como a instituição do voto secreto e do ensino público obrigatório (AZEVEDO, 1999, p.431).

As obras militares denotam ao movimento tenentista a característica de provocar a desordem uma vez que esse questionava o poder vigente. A manutenção da ordem representava apoiar o mineiro Artur Bernardes, então Presidente da República, através de mobilização das Forças Públicas Estaduais, convocadas pelo Governador Raul Soares e que foram colocadas sob o comando do Ministro da Guerra (SILVEIRA, 1991, p.91). A ordem nesse sentido estava em manter a estrutura sócio-econômica e política apoiando o poder vigente contra as empreitadas revoltosas.

Entendidas como “convulsões intestinas” – por envolver lutas de militares irmãos, ou seja, brasileiros – as rebeliões da década de 20 significam para os militares mineiros “o cumprimento do dever militar, o restabelecimento da ordem” (SILVEIRA, 1991, p. 93). A legalidade está representada nos interesses das lideranças políticas, no referido caso aos interesses do Presidente Artur Bernardes e concomitantemente do Governador Raul Soares que o apóia na lutam pela manutenção da estrutura política, social e econômica do país. Essa passagem da história militar mineira é retratada como a luta em prol do futuro da nação, onde os militares mineiros em uma “luta contínua e áspera” combatem em desvantagem numérica sem se furtar em defender a ordem.

A Polícia Militar aparece envolvida na Revolução de 30 para desempenhar um papel diferente. O momento é outro e a instituição que zela pela ordem – ou seja, mantém  e apóia o poder vigente – cumprirá com uma função até então desconhecida pela instituição. A Polícia Militar passa de defensora da ordem à revolucionária. O termo Revolução mais uma vez é utilizado de maneira equivocada, visto que na produção historiográfica militar mineira o evento é investido de valores que ultrapassam os acontecimentos e seu contexto, de acordo com os militares “em 1930, teve lugar a Grande Revolução que política, social e economicamente, trouxe profundas modificações para o país e se tornou na mais notável entre todas as revoluções brasileiras” (ANDRADE, 1990, p.79).

A cisão entre São Paulo e Minas Gerais em função da questão sucessória não pode ser vista como única e exclusiva causa da ruptura, todavia de acordo com a análise militar  o Presidente Washington Luís “quebrou arbitrária e acintosamente todas as normas políticas já consagradas e consideradas tradicionais, as quais estabeleciam a eleição para Presidente da República de, ora um candidato paulista, ora um mineiro, alternadamente, na chamada Política do Café com Leite” (ANDRADE, 1990, p.79).

Reconhecer como causa da ruptura única e exclusivamente o rompimento do acordo político entre São Paulo e Minas Gerais é silenciar outros atores históricos e se furtar em contextualizar o evento, as questões políticas e econômicas têm papel destacado no desencadear da revolução (SKIDMORE, 1996). Os efeitos da crise da política de valorização do café, em virtude da crise do capitalismo mundial com a quebra da bolsa de Nova York, foram base para o desencadear do movimento. As reformas políticas também foram fator de mudança e idealizadas pela Aliança Liberal – oposição que nasce da união de Rio Grande do Sul, Paraíba e Minas Gerais, tendo Getúlio Vargas com candidato à presidente e João Pessoa como candidato a vice-presidente – pretendiam a instituição do voto secreto e o rompimento com as eleições fraudulentas, além de mudanças no que refere a questões trabalhistas. A crise é muito maior que uma contenda regional.

Em se tratando da revolução constitucionalista de 1932, mais uma vez os papeis estão definidos. A Polícia Militar retoma ao papel de mantenedora da ordem e do poder vigente e os paulistas são vistos como contra-revolucionários com o desejo de revanche. A bem da verdade São Paulo realmente foi o grande perdedor com a revolução de 1930, sua hegemonia caiu por terra e a exigência de um interventor civil e paulista tem o objetivo de recuperar seu papel no cenário nacional, além é claro de pedir pela imediata reconstitucionalização do país. Essa efervescência desencadeou o processo de rebelião, sendo válida a distinção dos conceitos.

A Revolução se distingue da rebelião ou revolta, porque esta se limita geralmente a uma área geográfica circunscrita, é, o mais das vezes, isenta de motivações ideológicas, não propugna a subversão total da ordem constituída, mas o retorno aos princípios ordinários que regulavam as relações entre autoridades políticas e os cidadãos, e visa a satisfação imediata das reivindicações políticas e econômicas (BOBBIO, 2000, 1121).

Os equívocos conceituais mais um uma vez contribuem para uma valorização excessiva do evento e por conseguinte dos atores envolvidos, no caso estudado os atores destacados são os militares mineiros pertencentes a Polícia Militar de Minas Gerais.

O Golpe Militar de 1964 na concepção militar completa um “ciclo revolucionário” que se iniciou na década de 20 (ANDRADE, 1990). O golpe é visto como a revolução que partiu dos quartéis da Polícia Militar de Minas Gerais em oposição ao “holocausto” da revolução sindicalista planejada pelo Presidente João Goulart com as reformas de base. Uma discussão verticalizada dos conceitos se faz necessária em prol de uma melhor compreensão do período.

A Revolução se distingue do golpe de Estado, porque este se configura apenas como uma tentativa se substituição das autoridades políticas existentes dentro do quadro institucional, sem nada ou quase dos mecanismos políticos e sócio-econômicos.(...) o golpe de Estado é tipicamente levado a efeito por escasso número de homens já pertencentes à elite, sendo por conseguinte, de caráter essencialmente cimeiro (BOBBIO, 2000, p.1121).

A Polícia em seu papel no contexto histórico do golpe de 64 estaria representando o interesse de uma sociedade temerosa quanto ao futuro da nação, valores como a família e a igreja estavam em risco e portanto uma “revolução” seria o mais certo a fazer pela manutenção da ordem, “uma corporação nascida sob o signo da cruz e da justiça, tendo por baluarte de sua divisa o signo da Inconfidência e a bravura de Tiradentes, não iria aceitar, indiferente, o tacape da traição e baderna dos comunistas” (DEMARCO FILHO, 1990, p.85). O tom da produção historiográfica militar é maniqueísta e a Polícia representa o bem.

Na concepção militar a sociedade pede mudança através do movimento feminino e tem como armas o terço contra o comunismo. Minas Gerais representada por sua Polícia Militar mais uma vez cumpriria com seu papel, o destaque voluntário do Estado e da Instituição militar  empreendido pelos autores militares salta aos olhos.

Minas levantou-se em várias fases da história Republicana, para repor o Brasil no rumo certo, pois era – como ainda o é – o centro político, o ponto de equilíbrio da Nação.

Para tal desiderato, muito contribuiu sua  Polícia Militar, brava e aguerrida, disciplinada e notoriamente imbatível, que, por isso mesmo já transpôs os umbrais da História e alcançou uma forte posição no seio da nacionalidade (ASSIS, 1989, p. 231-232).

O tom de epopéia destaca ainda o papel do governador Magalhães Pinto como o herói civil da revolução, que como um estrategista se levanta em defesa da nação, Minas seria o único Estado com coragem para se levantar contra o monstro comunista. Uma análise que desconsidere o papel do governador Magalhães Pinto como importante ator político certamente se mostraria equivocada, entretanto outra análise que lhe denote toda a estratégia e responsabilidade pelo golpe se mostra no mínimo simplista e com objetivos específicos, pois não reconhece outras nuances políticas e econômicas que em muito influenciaram o desenrolar do golpe (STARLING, 1986).

Uma visão caricatural e deformada  do perigo comunista está marcada no discurso da sociedade e ecoa na Historiografia Militar Mineira como um multiplicador do medo e auto-afirmação dos feitos militares e do Estado de Minas Gerais, a contenda é tratada como uma luta entra “Davi e Golias”, o leviatã comunista deveria ser vencido. A “revolução” então teria salvado a sociedade, porém o que não se discute é o contexto da ditadura que se consolidou e dominou o país por 21 anos (SKIDMORE, 2000) . O período é visto na Historiografia Militar como um momento em que os militares tomam a sociedade em suas mão para que essa retome o rumo certo e promovem verdadeiras maravilhas tanto econômicas quanto sociais.

 

Considerações Finais

A Historiografia Militar Mineira demonstra o quão sui generis são suas análises, marcadas por uma visão particular em que o passado dita norma de comportamento e conduta. A prática de valorizar o passado é uma característica das instituições militares desde tempos remotos (BENTO, 1978), portanto a história da Polícia Militar de Minas Gerais no contexto analisado é base de manutenção tradicional, de identificação e valorização do membro para com a instituição, o legado dos antepassados é paradigma a ser seguido.

Os autores cumprem com uma “operação histórica” (DE CERTEAU, 1976) própria, onde o compromisso para com a instituição ultrapassa os trâmites epistemológicos da ciência histórica, o confronto entre História e Memória é ainda sua maior aresta. Como ciência o conjunto de obras não atende os pré-requisitos necessários a um digladio conceitual, entretanto a prática de uma história estrutural que se assemelha aos positivistas (REIS, 1999) não pode ser fator de preconceito para com tal produção, seria fazer tábula rasa de algo singular em sua essência, uma vez que como guarda da memória institucional reflete os valores de uma época e é  exemplo explícito de dedicação para com uma instituição.

 

Referências Documentais

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Referências Bibliográficas

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Notas Pie de Pagina

1Este artigo parte dos estudos empreendidos para elaboração da Monografia de Especialização em História e Cultura Mineira “Como se escreve a História Militar de Minas Gerais:  Tradição, Memória e Narrativas Castrenses”, apresentada ao Centro de Pós-Graduação das Faculdades Integradas Pedro Leopoldo, sob a orientação do Prof. Dr. Francis Albert Cotta, para obtenção do grau de Especialista.

2 Graduado em História pelo Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH, Especialista em História e Cultura Mineira pelas Faculdades Integradas Pedro Leopoldo FIPEL

 

* Imagen cangaço brasilero en: www.homez.secrel.com.br

 

 

 

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Última actualización: 19 de Febrero de 2006.